Crítica de Série - Kindred

É difícil chamar Kindred, da FX, de adaptação do romance de 1979, da vencedora do Prêmio Hugo, Octavia E. Butler. Há a mesma premissa - a história de uma mulher negra, Dana, que se vê inesperadamente puxada de volta no tempo para uma plantação pré-Guerra Civil. No entanto, de uma perspectiva narrativa e temática, há uma série de mudanças que alteram fundamentalmente e comprometem cada vez mais as muitas e ricas complexidades da sua história. Embora o desempenho comprometido da maravilhosa Mallori Johnson seja um ponto alto e a direção inicial de Janicza Bravo atraia você, tudo é prejudicado por uma história aquém do que Butler fez. É uma imensa oportunidade perdida. Enquanto assistia à Kindred, algumas das passagens do romance, que se referem à natureza da própria televisão, ficavam sempre vindo em mente. Em alguns momentos, Butler estabelece como Dana está processando o que ela estava vendo e vivenciando e como isso difere drasticamente do que ela viu na televisão. A violência real parece é mais presente do que qualquer representação. A Dana desta história é uma aspirante a roteirista (outra diferença do romance), e isso poderia ter criado uma narrativa INCRÍVEL abordando essa temática! A série, que parece inclusive ter esquecido totalmente o Black Lives Matter, acaba se parecendo com os programas diluídos que Butler descreve. Nos momentos em que o romance dá textura aos personagens e ao mundo, a adaptação apenas segue movimentos convencionais. Ela perde de vista a perspectiva, o poder e a poesia da história original, sem acrescentar nada de novo. Todas as suas melhores ideias são as do material de origem. Mesmo quando as atuações e a direção tentam ir além, sempre falham. O único ponto positivo é que isso pode gerar novos leitores de Butler e de seu sci-fi brutal e único. Escritos de uma mulher preta que distorceram meio e temática de homens brancos de classe média. Há muito livro ainda, de onde a série para, mas fica a sensação de que estão com medo de ousar. O que é desumanamente ridículo, dado que estão com uma obra revolucionária em mãos.

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