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Mostrando postagens de dezembro, 2023

Crítica de HQ - Peter Pan (Nemo)

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Me preparando a HQ, eu li a obra original, do J.M. Barrie (gratuito no Kindle). Além de criativo ele é um mestre de palavras e estrutura. Mas o que mais marcou foi a destruição da minha concepção da história de Peter Pan. Eu, como muitos, tinha familiaridade apenas com o produto higienizado da Disney. Sabemos que a pequena sereia da Disney não perde a língua e morre, ou que o Pinocchio deles não mata o grilo falante. De Pan, cortaram a narrativa criativa e o mundo foi castrado, subtraindo o lado aterrorizante da história. Anêmica e fraca, essa versão me manteve com asco do texto – que eu achava ser igual – por 30 anos. A leitura também evitou que eu pegasse o trabalho de Loisel chamasse de violento, sexista e objetificante, afinal, tem TANTO REMAKE DARK DE CONTO DE FADAS, que eu julgaria o autor por estar nessa vibe. Mas não. Loisel não refez nada, pelo contrário. É uma fanfic que deu certo. Loisel criou uma Londres suja e sinistra, meio Dickens e meio Moore, que vive sob o terrív...

Crítica de filme: When a Stranger Calls (1979)

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“O que você quer?” “Seu sangue despejado sobre o meu corpo”. Esse é um dos diálogos cortantes (olha a piadota) desse proto-slasher dos anos 70. Aqui, você encontra a origem de franquias icônicas do cinema como Pânico, filmes razoáveis como Eu sei o que vocês fizeram no verão passado e até mesmo parte da jogada de gato e rato do BRILHANTE (mais uma piadota) Shining Girls. A abertura do filme mostra uma babá (Carol Kane) sentada no andar de baixo da casa do Dr. e da Sra. Mandrakis, no subúrbio de Los Angeles, cada vez mais alarmada com uma ligação incômoda que fica perguntando com seu distinto sotaque inglês: “Você já checou as crianças?”. Comigo falando pode não parecer muita coisa, mas na tela é agonizantemente tenso, à medida que este opulento ambiente burguês vai sendo gradualmente amputado de toda a noção de segurança. Mesmo a babá se comporte com uma responsabilidade impecável, fazendo todas as coisas que deveria na sua situação, no seu isolamento, vulnerabilidade e desamparo...

Crítica de HQ - Bezimena (Zarabatana)

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Assustadora, difícil e incrivelmente transparente. Uma HQ totalmente adulta que mais se parece um filme de David Lynch, Bezimena concentra sua atenção na história de um predador sexual. Nina Bunjevac formata a história de forma que haja uma página de diálogo e, em seguida, uma ilustração enorme na página oposta. Em alguns casos, há representações explícitas de atos sexuais, sempre em locais esquisitos e escondidos. Se você decidir ler isso aqui, cuidado com os diversos gatilhos de abuso. Bezimena é assustadora e perturbadora, o que não é surpresa, dado o material original. As ilustrações me lembram o foco intenso e a qualidade das ilustrações de Frankenstein de Bernie Wrightson (minha edição gringa chegou há algumas semanas. Review em breve. Não gosto de traduções da Mary Shelley). E, novamente comparando com Frankenstein, vemos aqui uma mulher que passou por traumas intensos e está escrevendo para exorcizar sua própria escuridão. Benny, o agressor, tem o papel dessa figura respon...

Crítica de Quadrinho - Frankenstein 200 (Clepsidra)

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“Frankenstein” é um dos romances mais famosos de todos os tempos. Publicado anonimamente em 1818 e criado por uma escritora moldada por traumas e luto – mãe de três filhos que morreram e filha de uma escritora pré-feminista que morreu cedo – Mary Shelley dobrava a escrita ao seu bel-prazer, até como uma forma – alguns biógrafos suspeitam – de se ‘conectar’ com sua falecida mãe. O que poderia inclusive torturá-la, já que sua mãe também escreveu sobre como criar filhos. Em seu diário, temos entradas da autora como “Amamentar o bebê, ler”*. No dia seguinte “encontrei o bebê morto”*. Seu próprio nome era feito de pedaços de pessoas mortas: Mary Wollstonecraft da mãe, Godwin do pai e Shelley do marido. Frankenstein é quatro histórias em uma: uma alegoria, uma fábula sci fi, um romance gótico epistolar e uma autobiografia, um caos de fertilidade literária torturante para uma jovem autora que tentava concatenar seu luto, “progênie morta”* e uma existência fúnebre. Em 2018, a Editora Clep...

Crítica de Quadrinho - Mort Cinder (Editora Figura)

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O passado está tão morto como pensamos? Mort Cinder – o personagem, não o livro – oferece mais perguntas do que respostas, mas é assim que deveria ser. A HQ, escrita pelo jornalista argentino Hector Oesterheld e desenhado por Alberto Breccia é provavelmente tão misteriosa quanto o homem que lhe dá nome. Esta edição da FIGURA reúne as histórias de Mort Cinder num formato/tradução/qualidade incríveis. Elas apareceram originalmente de 1962 a 1964 e são lendárias por sua importância para a das HQs, então o negócio serve de documento histórico e entretenimento. Talvez essa seja a maior surpresa de todas – a parte do entretenimento. Tudo envelheceu incrivelmente bem, e há aspectos do personagem que ainda estão presentes nos quadrinhos modernos. A princípio não somos apresentados ao personagem Mort Cinder, mas sim ao seu companheiro, o antiquário Ezra Winston em uma leve história de terror em que misteriosos hieróglifos trazem estranhas visões. Cinder chega na história seguinte. Ezra é ...

Crítica de Filme - El Conde

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Uma figura sombria e encapuzada desliza pelos céus noturnos de Santiago, no Chile – um símbolo de presságio que paira sobre a cidade moderna. Ele entra em prédios de escritórios, fábricas, hospitais e apartamentos, e se alimenta brutalmente dos habitantes solitários de dentro deles. Este vilão, no entanto, não é fictício. Ele é o general Augusto Pinochet, o brutal ditador militar apoiado pelos EUA que governou o Chile de 1973 a 1990 e morreu em 2006 ainda com o sangue de milhares de pessoas nas mãos. Somente em El Conde, o hipnotizante filme de melodrama e terror tragicômico de Pablo Larraín, Pinochet nunca morreu de fato; ele era um vampiro imortal e fingiu sua morte para poder evitar um julgamento e viver sua vida em paz em um rancho remoto, subsistindo com smoothies nutritivos feitos de corações humanos e aproveitando a vasta fortuna que acumulou durante seu reinado de terror. Esse nem é o elemento mais maluco do filme. Filmado por Edward Lachman num preto e branco DELICIOSO, e...

Crítica de Série - Kindred

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É difícil chamar Kindred, da FX, de adaptação do romance de 1979, da vencedora do Prêmio Hugo, Octavia E. Butler. Há a mesma premissa - a história de uma mulher negra, Dana, que se vê inesperadamente puxada de volta no tempo para uma plantação pré-Guerra Civil. No entanto, de uma perspectiva narrativa e temática, há uma série de mudanças que alteram fundamentalmente e comprometem cada vez mais as muitas e ricas complexidades da sua história. Embora o desempenho comprometido da maravilhosa Mallori Johnson seja um ponto alto e a direção inicial de Janicza Bravo atraia você, tudo é prejudicado por uma história aquém do que Butler fez. É uma imensa oportunidade perdida. Enquanto assistia à Kindred, algumas das passagens do romance, que se referem à natureza da própria televisão, ficavam sempre vindo em mente. Em alguns momentos, Butler estabelece como Dana está processando o que ela estava vendo e vivenciando e como isso difere drasticamente do que ela viu na televisão. A violência rea...

Crítica de Filme - Existenz

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Jude Law é um novato em jogos de realidade virtual que tem que proteger a designer Allegra de um grupo sombrio de fanáticos anti-jogos. Em eXistenZ, de Cronenberg, as texturas do jogo, filme e vida ficam cada vez mais difíceis de separar, à medida que Law se vê perdendo todo o senso de identidade (e autonomia), ao mesmo tempo em que brinca de Deus. Mantendo a habitual obsessão com o que em Videodrome ele chamou de “a nova carne”, os protótipos de consoles usados pelos personagens são pods de “metacarne” – extensões orgânicas e erotizadas do corpo. Com mamilos em vez de botões, esses objetos grotescos são acariciados e palpados, e conectados aos jogadores através de um umbigo, como se jogar fosse um ato procriativo. A conexão máxima. Tudo certamente – e perversamente – sexualizado. À medida que Allegra e Law exploram juntos seus novos ambientes – lugares paranóicos cheios de conspiração, traição e rebelião violenta – Cronenberg também aborda o lado corporativo. Seus mundos de jogos...

Crítica de Série - Dead Ringers

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Ah os Reboots... Refazer personagens é promissor em teoria, mas muitas vezes executado sem muita intenção - um substituto apressado e preguiçoso por dinheiro. “Dead Ringers”, da Amazon Prime, foge da mesmice. Baseada no filme de Cronenberg de mesmo nome, temos Rachel Weisz no lugar de Jeremy Irons, interpretando uma dupla de ginecologistas gêmeas. Ringers entrega, preservando a estranheza característica do amado diretor enquanto leva a premissa a novos e surpreendentes patamares. Nosso amado Cronenberg é conhecido pelo horror corporal, e a gravidez é uma das façanhas mais surreais e angustiantes. Naturalmente, tornar as personagens principais capazes de se engravidarem e fazerem o parto uma da outra abre dimensões incríveis. Uma das primeiras vezes que encontramos Beverly, a mais reservada e cautelosa das gêmeas, ela segura seu próprio aborto – o mais recente – na palma da mão. “Oh, olá,” ela sussurra. Quanto mais aprendemos sobre as ambições das Mantle, mais elas parecem ficção ...

Crítica de Filme: Garota Sombria Caminha pela Noite

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Elegante, subversivo e sedutor. A Girl Walks Home Alone At Night é extremamente marcante. A primeira vez que vemos Girl, a protagonista, temos uma linda e draculesca silhueta silenciosa observando um carro distante onde um cafetão e traficante agride uma prostituta. Logo, ela desaparece. Na próxima vez que eles se encontrarem, o encontro terminará em sangue. Chamado de “o primeiro faroeste iraniano de vampiros” e o negócio faz jus, com seus olhares desafiantes, sangue e poeira, GIRL conta a história de uma vampira solitária que caça HOMENS nas ruas de BAD CITY, o longa de estreia de Amirpour suga (olha o trocadalho) de Sergio Leone e Nosferatu, retrabalhando e reformando seus antecessores. Deixando de lado o melhor preto e branco que já vi, atores incríves e um cenário Mad Max 1, o maior acerto de Armipour é a caracterização subversiva do mundo e da garota. Ela pegou os traços hiper-masculinos básicos de vampiros e faroestes para contar outra história. O xador, ao invés de um chap...