Postagens

Mostrando postagens de fevereiro, 2024

Crítica ESCÓRIA (Comix Zone) - Carlos Trillo e Juan Gimenéz

Imagem
Em meados da década de 1960, os pesadelos do apocalipse nuclear assiduamente cultivados pela ficção científica da década anterior começaram a ser substituídos por visões de um futuro em que a Terra se tornara um lugar hostil ao homem, justamente pela ação dele. A superpopulação e a poluição ambiental, tanto consequência de uma industrialização crescente e cada vez mais globalizada, quanto de um modelo econômico baseado no consumo e produção de itens descartáveis, delineavam perspectivas muito, muito sombrias. E é justamente o subproduto dessas tendências sociais e econômicas, o LIXO (do título original BASURA, o que me faz discordar da tradução da editora), que dá título à HQ. Quanto mais consumo, mais LIXO; quanto mais população, mais LIXO; quanto mais industrialização, mais LIXO. Se extrapolarmos esse ad infinitum, o que temos é um planeta como o imaginado por Carlos Trillo e Juan Giménez: um mundo devastado além de qualquer capacidade de regeneração e coberto de montanhas de plá...

Crítica de filme: Poor Things / Pobres Criaturas (2023)

Imagem
Contexto: Yorgos Lanthimos é a nova coqueluche do Weird. Menos explícito que o nazistinha Lars Von Trier, mais atento que o showman Gaspar Noé, ele vem tentando se colocar num nível Julia Ducournau de gênio criativo. É o hollywood-cult. O filme é baseado no livro POOR THINGS de 1992, escrito por Alasdair Gray. O autor criou uma mistura de conto de fadas, Frankenstein e Lolita, mantendo inclusive o formato epistolar usado por Mary Shelley. Repleto de sátira política, Bella é uma mulher NADA vitoriana. Uma linda homenagem ao trabalho de Shelley e repleto de referências à história da Inglaterra. Logo de cara, é impossível não se apaixonar pela cinematografia de Robbie Ryan. O filme é ricamente colorido e repleto de ângulos criativos. Imagino o quanto de BARRY LYNDON Robbie deve ter implantado aqui. A cada cena, tons deliciosos pulam na tela, daqueles que gostaríamos que estivessem presentes nas nossas vidas e assistimos tudo acontecer sempre de forma inusitada. Muito Freudiano, assim...

Livro: O Exorcismo da Minha Melhor Amiga (Grady Hendrix, Intrínseca, Quirck Books)

Imagem
Se você AMA nostalgia misturada com ficção, como Stranger Things, e consegue lidar com passagens razoavelmente nojentas, MY BEST FRIEND’S EXORCISM é o seu livro, com duas adolescentes que lutam contra forças do oculto em 1988. Abby e Gretchen tornam-se amigas depois que Gretchen é a única pessoa a comparecer à festa de décimo aniversário de Abby – melhor parte do livro, para mim. Os pais de Gretchen são ricos e os de Abby não. Abby ajuda Gretchen a experimentar todas as partes da cultura pop que os pais superprotetores de Gretchen proíbem, e Gretchen fornece a Abby um abrigo contra uma família emocionalmente desolada. O livro está REPLETO de referências à década de 1980 e gira em grande parte em torno da obsessão da época por drogas (Just Say No) e rituais satânicos. Embora o livro inclua muitas referências divertidas à cultura dos anos 1980 também, ele possui detalhes que nos mergulham na confusa e controversa cultura oitentista dos EUA, como slut-shaming, victim-blaming, homofobia...

HQ: Neonomicon (Alan Moore)

Imagem
Desde FROM HELL, 1991, Moore parou de mexer com temas que são facilmente lidos pela maioria das pessoas. Possivelmente para desencorajar adaptações cinematográficas e derivações. Com o divórcio longo e amargo com a indústria dos quadrinhos o GRANDE MAGO abandonou totalmente o mainstream e quase que totalmente a ação “encapuzado vs encapuzado”. O que temos aqui em NEONOMICON é o início de seus trabalhos em quadrinhos na temática lovecraftiana – não o termo genérico usado na indústria hoje para TUDO O QUE É ESCURO kkkk – mas ele, provavelmente leitor e pesquisador da coisa toda, consegue nos levar a nuances da obra de HP que eu só consigo enxergar, por exemplo, graças aos estudos e leituras de artigos acadêmicos sobre o criador do Cthulhu. Temos nessa edição – anterior a PROVIDENCE – uma exploração das fobias raciais e sexuais do HP... todas envoltas em uma vibe investigativa. É uma versão muito GORE de Arquivo X, com agentes inicialmente investigando crimes e assassinatos inspirados...

Filme: The Nest (1980)

Imagem
Numa década perfeita para o horror, adaptando Stephen King loucamente, inovando com Evil Dead, trazendo sci-fi de terror com The Thing e Aliens ou até mesmo com brincadeiras lovecraftianas envolvendo o patriarcado, como Possession, filmes com criaturas nojentas REAIS podem ter passado batido. Temos o monstruoso Slugs e o delicioso THE NEST (1988). Se você jogar THE NEST no google, encontrará um filme com Jude Law que, além de não ter um bom roteiro, não tem baratas que devoram pessoas. Lastimável. The Nest se baseou no livro de mesmo nome, escrito por Gregory A. Douglas (Eli Cantor). Com uma pesquisa competente de biologia e insetos de modo geral, o livro – que integra a coleção PAPERBACKS FROM HELL, selecionada por Grady Hendrix e Will Errickson após um livro homônimo – alterna muito bem entre detalhes e agilidade, nos mostrando todas as maneiras divertidíssimas de matar pessoas e aterrorizar uma ilha usando baratas. O horror, e o número de insetos, vai aumentando e, como um escrit...

Zumbis que amamos! - Breves considerações (de Ilha da Magia a Walking Dead)

Imagem
Essa postagem foi inspirada por uma pergunta da querida amiga @elmiracarlanaoesta em um dos grupos no qual nós dois participamos. Amo zumbis desde sempre e eles estão em diversos dos meus contos. Há um tipo deles no UM NOVO CÓSMICO, da coleção carnamal, com o clube de leitura @escuromedo e também num projeto que sairá nos próximos meses. Já peço desculpas de ANTEMÃO pelo terrível reducionismo imposto pelo formato da postagem, mas deixarei aqui a bibliografia utilizada: RUSSELL, Jamie. Zumbis, O livro Dos Mortos. Leya Cult, 2010. RUSSELL, Jamie. The Complete History of Zombie Cinema. Titan Books, 2014. LAURO, Sarah Juliet. Zombie Theory, A reader. 2017. BISHOP, Kyle William. American Zombie Gothic: The Rise and Fall (and Rise) of the Walking Dead in Popular Culture. McFarland, 2010. WEAVER, Tom. I Talked with a Zombie - Interviews with 23 Veterans of Horror and Sci-fi FIlms and Television. 2008.

Cine Verão 2024 - Prêmios da Crítica (ACCIRN)

Imagem
Cine Verão! Pude participar do júri da Mostra Poti, com curtas INCRÍVEIS feitos aqui na terrinha. Brinquei que Sidarta Ribeiro fala sempre que “no Brasil, a gente faz ciência de teimoso”, imagina cinema... cultura! Algo que muitas pessoas acham supérfulo, mas que é essencial para o bem-estar. Melhor Curta da Mostra Poti para o júri da ACCIRN foi o MOVENTES, do Jefferson Cabral. Uma obra simples e, ao mesmo tempo, complexa. MOVENTES toca em pontos muito queridos de nós, nordestinos. Tão intensos quanto a seca ou o preconceito que vivemos. A luz mostrando os retirantes, nordestinos que foram para grandes centros, e os que ficavam (esposas, avós, filhos,...) é incrivelmente sensível e poética. Com uma fotografia incrível do Johann Jean, o filme nos faz viver um pouquinho da batalha de sempre do nordestino – aquela por uma vida melhor. Menção Honrosa da Mostra Poti foi para LIA ESTÁ SOZINHA EM CASA, um curta cheio de twists e coração. A discussão de luto, saudade e das presenças que ...

Livro: Nossa parte de Noite - Mariana Enriquez (Intrínseca)

Imagem
“Eles atiram corpos em você”. NOSSA PARTE DE NOITE é um fenômeno complexo e difícil de explicar. Mariana Enríquez, a brilhante criadora e escritora, montou uma obra longa, complexa, repleta de personagens interessantíssimos, que aborda os perigos do fascismo e das ditaduras e – na cobertura desse bolo, negra e voraz, tão escura que não permite a reflexão de luz alguma, tragando você como um buraco negro o faria – nos dá uma generosa quantidade de horror. Sentimos horror pelos rituais, mutilações, abusos. Sentimos horror ao assistir seres humanos destruídos por outros seres humanos e que lutam contra o instinto de destruir a próxima geração. Sentimos horror ao ver do que um governo é capaz, quando a determinação de manter tudo em seu devido lugar vem na forma de tortura e morte. Mariana Enríquez é um grito contra o esquecimento. Seu livro usa a faceta deliciosa da ficção especulativa para ser uma peça de memória. “As vozes dos ausentes são a primeira coisa que esquecemos”. Talvez,...