Livro: Nossa parte de Noite - Mariana Enriquez (Intrínseca)
“Eles atiram corpos em você”.
NOSSA PARTE DE NOITE é um fenômeno complexo e difícil de explicar. Mariana Enríquez, a brilhante criadora e escritora, montou uma obra longa, complexa, repleta de personagens interessantíssimos, que aborda os perigos do fascismo e das ditaduras e – na cobertura desse bolo, negra e voraz, tão escura que não permite a reflexão de luz alguma, tragando você como um buraco negro o faria – nos dá uma generosa quantidade de horror.
Sentimos horror pelos rituais, mutilações, abusos. Sentimos horror ao assistir seres humanos destruídos por outros seres humanos e que lutam contra o instinto de destruir a próxima geração. Sentimos horror ao ver do que um governo é capaz, quando a determinação de manter tudo em seu devido lugar vem na forma de tortura e morte.
Mariana Enríquez é um grito contra o esquecimento. Seu livro usa a faceta deliciosa da ficção especulativa para ser uma peça de memória. “As vozes dos ausentes são a primeira coisa que esquecemos”. Talvez, graças à obra, lutemos mais.
Como um horror que sabe a que veio, não há muita esperança aqui. Os personagens são reais demais para serem bons. Para terem apenas tons de preto ou branco. Ainda que você queira tirar tarô com Tali, discutir antropologia com Rosario, ouvir sobre a Ordem de Florence e Mercedes ou – se tiver coragem – dialogar sobre o oculto com Juan, todos esses personagens têm suas partes de noite lá, e vemos cada uma delas numa escuridão total, na qual nem estrelas ou luas ousam intervir.
A autora habilmente muda de voz narrativa e de ponto de vista ao seu bel prazer. É encantador ver as mudanças de capítulo, de tema, de núcleo e ver as coisas se conectando da maneira mais interessante e/ou macabra o possível. Como uma força motriz da vida e do viver, Mariana não tem piedade de suas criações nem de seus leitores. Acho que a vida de quem não passou pelo julgo de uma opressão inigualável como uma ditadura ou o impedimento de você ser algo que não um instrumento, como Juan ou Gaspar, deve ser doce o suficiente para que lidemos com o livro.
Em quase 600 páginas Enríquez nos dá horror sem fim e, como bobos e mesmerizados iniciados que somos, nos entregamos para o abate.


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