Crítica ESCÓRIA (Comix Zone) - Carlos Trillo e Juan Gimenéz

Em meados da década de 1960, os pesadelos do apocalipse nuclear assiduamente cultivados pela ficção científica da década anterior começaram a ser substituídos por visões de um futuro em que a Terra se tornara um lugar hostil ao homem, justamente pela ação dele. A superpopulação e a poluição ambiental, tanto consequência de uma industrialização crescente e cada vez mais globalizada, quanto de um modelo econômico baseado no consumo e produção de itens descartáveis, delineavam perspectivas muito, muito sombrias. E é justamente o subproduto dessas tendências sociais e econômicas, o LIXO (do título original BASURA, o que me faz discordar da tradução da editora), que dá título à HQ. Quanto mais consumo, mais LIXO; quanto mais população, mais LIXO; quanto mais industrialização, mais LIXO. Se extrapolarmos esse ad infinitum, o que temos é um planeta como o imaginado por Carlos Trillo e Juan Giménez: um mundo devastado além de qualquer capacidade de regeneração e coberto de montanhas de plástico, chorume, refugo e seres humanos menos favorecidos. Há uma elite que sobrevive isolada do mundo exterior, reclusa em grandes cidades estagnadas, que é obcecada, paradoxalmente, com a limpeza. O contraponto vem até no nome: cidade branca. Carlos Trillo não tem uma opinião nada positiva sobre a natureza humana (e deveria?). Seja na ficção científica ou realista, seus roteiros muitas vezes marcam os piores traços de nossa espécie. Seus protagonistas, muito humanos, são imperfeitos e repletos de frustrações e desejos obscuros, mas tentam manter sua integridade em um mundo infestado de egoísmo, tirania, mesquinhez, violência e ganância. Mas, como encontrar alguma integridade ou luta se o próprio sistema existe para te manter num lixão? Era 1986, mas veja o quão atemporal é a crítica. ESCÓRIA não é tanto um alerta sobre as devastadoras consequências ambientais e sociais de uma civilização que vive para produzir lixo, mas uma alegoria da opressão e exploração dos fracos pelos poderosos. E da ilusão de que de algum lugar, ou de supostos messias, virá a solução – e não de nós, dos despossuídos. Dos que chafurdam por esperança.

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