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Mostrando postagens de maio, 2024

Crítica: Bebê Rena (Netflix)

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A coisa que eu não conseguia tirar da cabeça quando comecei a assistir Baby Reindeer, foi: "Quanto dessa história é realmente verdade?” E então, quando terminei a série e fiquei chocado ao saber que não é apenas verdade, mas também é autobiográfica. Não é apenas autobiográfica, mas a estrela principal, Richard Gadd, que interpreta o protagonista Donny, também é o criador da série – ou seja, Gadd estava literalmente repetindo uma versão ficcional de algumas das cenas mais traumáticas de sua vida. A série explora temas de ambição e fama, trauma, obsessão, doença mental, sexualidade e vergonha. O que é impressionante em Baby Reindeer é que ele faz tudo isso em sete episódios. Depois de assistir, me senti física e mentalmente esgotado, mas sem dúvida fiquei maravilhado com o primor de roteiro e com a estranheza de tudo o que estava na minha frente. Donny parece um cara comum. Sim, ele está sendo perseguido por uma mulher com problemas mentais, mas ele não é exatamente um homem per...

Leia Mulheres no TERROR (Principalmente mulheres vivas)

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Quantos homens você já leu em seu tempo de vida? Você acha que leu mais mulheres ou homens? Você já leu pessoas trans? Pessoas queer? Pessoas pretas? “Ah, mas homens escrevem mais. Publicam mais”. Será? Se sim, qual o motivo? Você sabe o que é horror? O que é literatura de gênero? O seu horror é o horror mainstream branco e heteronormativo? Você já parou para pensar em quantas vezes um autor como Edgar Allan Poe já foi lido nos últimos 192 anos dado o seu pioneirismo provocado por questões raciais, de gênero e de classe? Já pensou em quantas novas leituras e criações foram feitas em cima da obra dele nesses últimos dois séculos de patriarcado com suas questões de sempre (homens brancos lendo homens brancos cis) e esmagamento/apagamento/rejeição de autoras? Leia, divulgue, indique, compre e resenhe escritoras. Você não tem ideia do nível incrível de literatura que te aguarda.

Resenha: Voladoras (Mónica Ojeda - Autêntica Contemporânea)

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Baseando-se no folclore equatoriano, na história oral e na mitologia inca, Mónica Ojeda apresenta uma estreia em contos de ficção que é tão perspicaz quanto visceral, uma coleção hábil e de arrepiar os cabelos que expande as possibilidades da literatura gótica latino-americana contemporânea. Ojeda escreveu o livro de contos que eu queria ter escrito. É uma sensação inevitável ao ler o pequeno volume de 130 páginas. Em um mundo que me irrita constantemente com uma hegemonia de autores, frequentemente homens e brancos, centrados em fios condutores normativos como a jornada do herói ou em replicar/emular seus “grandes ídolos” – Bram Stoker, Stephen King, Tolkien, Isaac Asimov, etc – ler algo como VOLADORAS é um bálsamo. Um sopro de ar frio ao sair da floresta sufocante do comum e do tradicional. Especialmente se eu insistir em atribuir palavras como ‘gótico’ e ‘insólito’ – apropriadas pelo academicismo no Brasil – a autora. De Guayaquil, no Equador, Mónica Ojeda nos joga na cara m...

Resenha: Mega (Salvador Sanz - Zarabatana)

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Há alguns anos eu tive uma sorte grande: era festa ou feira do livro, online por causa do covid, e tive acesso ao catálogo da Zarabatana com descontos impossíveis. Daí, julguei pela capa, e peguei Esqueleto e suas sequências, Legião e Angela De La Morte. Todos de um argentino chamado Salvador Sanz. O que eu não sabia era que estava encontrando um novo ícone dos quadrinhos para mim e um mestre no horror, que acabou por virar uma grande inspiração na maneira como concebo histórias. Nas obras que citei, eu já fui pego por dois elementos que hoje são indistinguíveis do nome Salvador Sanz para mim: altíssimo nível de arte e o horror ligado no máximo. Estamos lidando com um autor que, como Clive Barker, Amanda Miranda ou Mariana Enriquez, não faz concessões (a não ser que ele imagine as coisas num nível muito pior na cabeça dele lol) e nos entrega uma cena brutal atrás da outra. Obviamente, quem havia visto os combates e momentos viscerais de Esqueleto e a curiosa inovação de roteiro em...

Resenha: Era apenas um presente para meu irmão (A Barbárie de Queimadas) - Bruno Ribeiro - Todavia

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Como tentar entender o que não possível de ser entendido? Como justificar o injustificável? Se compreendermos todas as camadas complexas e simbióticas do capitalismo e do patriarcado que há tanto tempo moldam quem somos, o que fazemos, o que queremos... isso justifica o mal que conseguimos, enquanto humanos, fazer uns com os outros? Talvez grandes teóricos consigam concatenar alguma resposta que beire o satisfatório. Gostaria de me sentar numa roda com Rita Von Hunty, Angela Davis, Marighella e Fanon e tentar vê-los debater a Barbárie de Queimadas e a podridão estrutural da periferia do capital que levou até sua consumação. Não se enganem: não há respostas fáceis. E, provavelmente sabendo de tudo isso, Bruno Ribeiro foi lá e nos trouxe ERA APENAS UM PRESENTE PARA O MEU IRMÃO – A BARBÁRIE DE QUEIMADAS. De onde surgiram suas forças para entrevistar, ler, pesquisar, sondar, averiguar, relatar e escrever eu também não sei, mas seu trabalho é minucioso e preciso. Seguindo a escola M...

Crítica: Castanha do Pará (Gidalti Jr. - Editora Brasa)

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Não há como se medir a sorte de termos um Gidalti Jr. e um Marcelo D’Salete. Essa resenha é sobre CASTANHA DO PARÁ mas o nome do Marcelo tem que ser mencionado pois ele talvez tenha sido o maior percursor do realismo em quadrinhos no Brasil. Quando somos confrontados com um trabalho tão potente como ANGOLA JANGA e avaliamos a escravidão na época e suas consequências e versões modernas, algo muda dentro de todos nós. E o fato do D’Salete ter escolhido como meio de comunicação para essa história uma HQ – algo “marginal, menor, acessório"? Daí, nós brasileiros meio que começamos a prestar atenção nesses grandes contadores de histórias que se nutrem de uma realidade caótica e monstruosa para produzir arte em níveis impressionantes. Por um momento, quase paramos de olhar para os europeus e suas narrativas gráficas e percebemos que a eles não devemos nada. Para quem não conseguiu lidar com a crueza brutal de Mutarelli e a complexidade de Laerte, esse movimento foi uma corrida para ...

Lobster Johnson - Omnibus Vol. 1 (Mignola, Arcudi, Zonjic, Others)

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Lobster Johnson é absoluto em sua simplicidade. Você pode procurar por algo abaixo da superfície - significados ocultos, profundidade, as grandes visões cósmicas que guiaram Hellboy - mas é em vão. Lobster Johnson é exatamente tão simples quanto parece à primeira, segunda e décima quinta olhada: existe um cara chamado Lobster. Ele vive na primeira metade do século XX. Ele mata pessoas. Pessoas más, com certeza — gângsteres, assassinos, incendiário, etc. É isso. Esse é o charme das cerca de 400 páginas coletadas neste volume, incluindo três coleções de TPs esgotadas. Não há absolutamente nenhuma gordura. Outros personagens desse tipo, sejam eles ícones pulp pré-super-heróis (o Sombra), ou criações mais recentes como o Justiceiro, tendem a ter pelo menos a pretensão de profundidade. Eles têm alguma vida pessoal, ou pelo menos uma história trágica que os leva ao combate ao crime. Aqui não; depois de todas essas páginas, você não sabe mais sobre os motivos do Lobster, ou mesmo sobre se...

HQ: Henri Désiré Landru (Chabouté - Pipoca & Nanquin) - Crítica

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Numa edição caprichada, bem impressa, livre de erros e feita num preto e branco lindíssimo – posso estar errado e o francês Chabouté nunca os ter conhecido, mas é a um tipo de arte com as influências do Brecchia pai e filho e também de Muñoz – temos o quadrinho HENRI DÉSIRÉ LANDRU, lançado pelo Pipoca & Nanquim. Com uma narrativa ágil e repleta de flashbacks bem colocados, acompanhamos um estelionatário que é chantageado por um ex combatente da primeira guerra mundial para que seduza e traga até sua casa no campo mulheres solitárias e bem de vida, para que tenham seu dinheiro roubado e sejam enviadas para a Argentina. Num ‘plot twist’, descobrimos que o ex combatente está matando cada uma delas para usar parte de sua pele na reconstrução de seu rosto e – além disso – há um plano do governo francês de alimentar a mídia com informações do Serial Killer para que a impopular guerra onde estão envolvidos saia da capa do jornal. O quadrinho é originalmente de 2006 e nessa época já ha...

HQ: Sharaz-De (Sergio Toppi - Figura) - Crítica

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Toppi brincando em criar cada história fabulosa que Sharaz-De (Sherazade) conta para sobreviver a um rei tirano, que, magoado, mata uma mulher por amanhecer. A fluidez, inventividade e peculiaridade da arte de Toppi alçam grandes voos aqui, não há civilizações que sejam cópias uns dos outros, não há rostos iguais ou criaturas repetidas... O que temos é um verdadeiro universo fantástico, ao ponto de que o próprio texto perde um pouco de sua relevância. Toppi não faz nenhuma acrobacia narrativa. É tudo contado em um tom bastante direto. Estão lá e são fiéis e não muito mais. Mas, como eu disse, elas são a gênese de imaginações visuais selvagens! Sherazade encanta o leitor tanto quanto encanta o Rei. Queremos mais de seus olhares rodeados por um preto fechado e que transmitem toda a sua sagacidade, e de suas histórias, detentoras de algum ensinamento, algumas como "cautionary tale", outras com requintes de crueldade, tudo em prol de sua fuga criativa da tirania do patriarcad...

HQ: Lavagem (Shiko - Mino) - Crítica

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Vamos novamente de SHIKO! O quadrinho que temos aqui é muito singular. O de sempre: a arte do Shiko está fantástica. Aqui em específico ela alterna entre o belo, o erótico e a violência, retratando cada um de sua maneira peculiar. Fora isso, o autor consegue trazer muitas coisas que são INFELIZMENTE cotidianas para o Brasil: as igrejas tomando o controle, as crenças limitadoras, a obediência, a pobreza, cidades no interior, relacionamentos abusivos e, principalmente, machismo. A forma que o patriarcado encontra de silenciar e controlar mulheres é uma combinação muito específica de tudo isso, na verdade. Ao mesmo tempo, a HQ nos mostra muito do homem atual. O homem “sem propósito”. Ele não serve mais para nada. Ele não é mais o provedor. Ele não é mais o guerreiro. Ele nem mesmo controla o corpo de sua mulher. O rancor que tudo isso causa vem no formato de OMAR e, como vemos no jornal o tempo todo, esses sentimentos de incapacidade e insatisfação estão extremamente próximos de se t...

O que apoiar no Catarse?

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Acesse os links aqui: https://l.instagram.com/?u=https%3A%2F%2Flinktr.ee%2Fbaiaodacaveira&e=AT1NkXA1YSY7SQAzNQYTCd8NaBeWNqMaAzvZz51yV5zYqWLNhd4aVSGpM-VS0F0g89rOm11qkJStbwM4bRWO5g-RP87l2pbfBD52xflLlD-0Ua8dKXYiAVo

Escrita: Conto IXAXAAR (Diário Macabro 09 - Editora Diário Macabro)

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A DM 09 traz 21 contos de autores brasileiros que variam entre o terror, o fantástico, o mistério e até mesmo gore. Ela também contará com ilustrações diversas e outros conteúdos que ainda estamos preparando! A capa dessa edição foi feita por Anderson Almeida, mesmo responsável pelo capa de "A casa no Limiar"! Novo conto saindo do forno pela editora DIÁRIO MACABRO! Lembrando que o livro SÓ SERÁ LANÇADO se houver o financiamento, por isso preciso de ajuda! Vocês podem apoiar a campanha ou divulgá-la, para que o livro se concretize! Dessa vez vamos pra longe do Seridó e adentramos PROVIDENCE, terra de HP Lovecraft com um conto inspirado em seu horror cósmico mas numa versão TOTALMENTE despirocada. “Ixaxaar” é um pesadelo profundo materializado. Ao trazê-lo para nossa dimensão, o professor Julius Evola é tomado por forças cósmicas obscuras que o transformaram em um horror de carne e osso. Leia o relatório da polícia de Providence sobre o incidente — junto de páginas do diá...

Escrita: Conto AO SUL DO CÉU (LGBTerror - Editora Diário Macabro)

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Está aberta a pré-venda da nova antologia @editoradiariomacabro da qual faço parte: LGBTerror. 🏳️‍🌈🖤🔪 ADQUIRA SEU EXEMPLAR NO LINK DA MINHA BIO UTILIZANDO O CUPOM DE DESCONTO LUNARDELLO5 ▪️Nesta antologia, organizada por @cabrardo_autor e @anne.demeneck você encontra 15 contos com temáticas LGBTQIA+ pelo viés do terror. São histórias que trabalham com o medo e o fantástico como meio de autoaceitação, vingança, superação e até mesmo exorcismo, portanto, cuidado com o vale da sombra da morte! ▪️Ah, e apenas durante a pré-venda, você leva um adesivo de cartão de presente. Não deixe de adquirir seu exemplar com o cupom de desconto LUNARDELLO5 e leia meu conto “AO SUL DO CÉU”. - Morte. Humilhação. Feminicídio. Todos os terrores perpetuados pelo homem seguem impunes e, como um vírus, eles matam e destroem milhares de vidas. Mas e se, de algum lugar além da nossa compreensão, alguém estiver observando e desejando vingança muito mais do que igualdade? Importante também salientar a ca...