Crítica: Castanha do Pará (Gidalti Jr. - Editora Brasa)

Não há como se medir a sorte de termos um Gidalti Jr. e um Marcelo D’Salete. Essa resenha é sobre CASTANHA DO PARÁ mas o nome do Marcelo tem que ser mencionado pois ele talvez tenha sido o maior percursor do realismo em quadrinhos no Brasil. Quando somos confrontados com um trabalho tão potente como ANGOLA JANGA e avaliamos a escravidão na época e suas consequências e versões modernas, algo muda dentro de todos nós. E o fato do D’Salete ter escolhido como meio de comunicação para essa história uma HQ – algo “marginal, menor, acessório"? Daí, nós brasileiros meio que começamos a prestar atenção nesses grandes contadores de histórias que se nutrem de uma realidade caótica e monstruosa para produzir arte em níveis impressionantes. Por um momento, quase paramos de olhar para os europeus e suas narrativas gráficas e percebemos que a eles não devemos nada. Para quem não conseguiu lidar com a crueza brutal de Mutarelli e a complexidade de Laerte, esse movimento foi uma corrida para o abraço. Como daria errado com artes tão incríveis e histórias repletas do nosso cotidiano? Acabamos por nos apaixonar por Ilustralu, Langona, Quintanilha, D’Salete, Lobo, João Pinheiro, Alves e tantos outros. A complexidade, o caos, o monstruoso e o real do Brasil transbordam nessas HQs! Isso é só uma das camadas do trabalho profundo e humano de Gidalti Jr. Castanha do Pará, assim como o mundo para Cartola, “vai triturar teus sonhos (...) vai reduzir as ilusões a pó”. Acompanhamos a história de Castanha, um menino paraense que tem uma história tão típica que poderia ser a sua ou a minha. Desesperado por algo que pudesse chamar de lar, por algum senso de normalidade, carinho ou consistência, Castanha desafia tudo e todos, surfando pela camada mais complexa da vida – aquela em que você chega sem muitas opções, apoio ou “sorte”. Com arte e cores de tirar o fôlego, diálogo e narração primorosos, Gidalti Jr. destrói nosso coração e nossa errônea sensação de que há algo indo bem por aqui. No acabamento incrível e tratamento magnífico da BRASA, essa história que tentaram censurar vive. Espero que, através dela, nos animemos para ajudar outros a viver também.

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