HQ: Lavagem (Shiko - Mino) - Crítica
Vamos novamente de SHIKO!
O quadrinho que temos aqui é muito singular. O de sempre: a arte do Shiko está fantástica. Aqui em específico ela alterna entre o belo, o erótico e a violência, retratando cada um de sua maneira peculiar.
Fora isso, o autor consegue trazer muitas coisas que são INFELIZMENTE cotidianas para o Brasil: as igrejas tomando o controle, as crenças limitadoras, a obediência, a pobreza, cidades no interior, relacionamentos abusivos e, principalmente, machismo. A forma que o patriarcado encontra de silenciar e controlar mulheres é uma combinação muito específica de tudo isso, na verdade.
Ao mesmo tempo, a HQ nos mostra muito do homem atual. O homem “sem propósito”. Ele não serve mais para nada. Ele não é mais o provedor. Ele não é mais o guerreiro. Ele nem mesmo controla o corpo de sua mulher. O rancor que tudo isso causa vem no formato de OMAR e, como vemos no jornal o tempo todo, esses sentimentos de incapacidade e insatisfação estão extremamente próximos de se tornarem violência.
Do outro lado, temos sua esposa, cometendo o maior pecado que uma mulher pode cometer na atual sociedade que tem vivido um retrocesso brutal: o de ser ela mesma. Dona de si e de suas vontades.
Tudo temperado pela religiosidade cristã evangélica de nível televisivo e pelo ambiente tão isolado e pequeno de onde vivem. É a “tempestade perfeita”.
A história provoca um pouco de tudo, ainda que predomine o thriller, o terror. Leitores menos experientes comparariam com as clássicas CREEPY ou EERIE, Mas o que tínhamos ali não tinha tantas camadas assim, nem exploravam tão bem as circunstâncias deploráveis às quais muitas mulheres estão sujeitas. Não, Shiko vai além e nos dá a versão em quadrinhos de POSSESSION. Eu vi Isabelle Adjani em cada quadro, em cada olhar desesperado.
Ele evoca ainda VIDAS SECAS, com um homem muito mais “animal” do que homem. Afinal, o que é ser homem? É “cuidar” da fêmea, comer e foder?
Há ainda que se falar do polissêmico título. A lavagem que o porco come... a alma lavada.
Num mundo onde constantemente somos bombardeados por uma busca incessante por respostas simples, Shiko se mantém complexo sem prepotência.
Artístico sem frescura.


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