Resenha: Era apenas um presente para meu irmão (A Barbárie de Queimadas) - Bruno Ribeiro - Todavia
Como tentar entender o que não possível de ser entendido?
Como justificar o injustificável?
Se compreendermos todas as camadas complexas e simbióticas do capitalismo e do patriarcado que há tanto tempo moldam quem somos, o que fazemos, o que queremos... isso justifica o mal que conseguimos, enquanto humanos, fazer uns com os outros?
Talvez grandes teóricos consigam concatenar alguma resposta que beire o satisfatório. Gostaria de me sentar numa roda com Rita Von Hunty, Angela Davis, Marighella e Fanon e tentar vê-los debater a Barbárie de Queimadas e a podridão estrutural da periferia do capital que levou até sua consumação.
Não se enganem: não há respostas fáceis.
E, provavelmente sabendo de tudo isso, Bruno Ribeiro foi lá e nos trouxe ERA APENAS UM PRESENTE PARA O MEU IRMÃO – A BARBÁRIE DE QUEIMADAS.
De onde surgiram suas forças para entrevistar, ler, pesquisar, sondar, averiguar, relatar e escrever eu também não sei, mas seu trabalho é minucioso e preciso. Seguindo a escola Mizanzuk (Projeto Humanos O Caso Evandro e Altamira) – que eu nem sei se ele seguiu/conhece – Bruno trabalha com fatos, se distancia de julgamentos e vieses e tenta oferecer a maior quantidade possível de clareza para o injustificável.
Os relatos, entrevistas e transcritos de documentos, autos e julgamentos são completos e impressionantes e o trabalho de compreender aspectos complexos – grandes e pequenos – de Queimadas, cidade na Paraíba, foi quase arqueológico. O autor se debruça sobre o esqueleto de um mutante complexo – uma cidade forjada por intrigas, famílias rivais, machismo estrutural, corrupção – que é piorado por influências externas – mais corrupção, tráfico de influência, crime.
Brinquei em um Story que postei aqui no Insta que jamais conseguiria conceber algo tão atroz quanto a Barbárie. Na verdade, falei que nenhum autor de terror/horror assim como eu conseguiria. Podemos abraçar o Body Horror, amarmos Cronenberg, nos deliciarmos com o soturno de Ojeda, Enriquez, Ampuero, ou a Midnight America de Stephen King e, ainda assim, nosso mal inventado é trivial quando comparado ao que Eduardo e Luciano orquestraram.
Um crime maldito e brutal relatado em um livro incrível.


Comentários
Postar um comentário