Resenha: Voladoras (Mónica Ojeda - Autêntica Contemporânea)
Baseando-se no folclore equatoriano, na história oral e na mitologia inca, Mónica Ojeda apresenta uma estreia em contos de ficção que é tão perspicaz quanto visceral, uma coleção hábil e de arrepiar os cabelos que expande as possibilidades da literatura gótica latino-americana contemporânea.
Ojeda escreveu o livro de contos que eu queria ter escrito.
É uma sensação inevitável ao ler o pequeno volume de 130 páginas.
Em um mundo que me irrita constantemente com uma hegemonia de autores, frequentemente homens e brancos, centrados em fios condutores normativos como a jornada do herói ou em replicar/emular seus “grandes ídolos” – Bram Stoker, Stephen King, Tolkien, Isaac Asimov, etc – ler algo como VOLADORAS é um bálsamo. Um sopro de ar frio ao sair da floresta sufocante do comum e do tradicional. Especialmente se eu insistir em atribuir palavras como ‘gótico’ e ‘insólito’ – apropriadas pelo academicismo no Brasil – a autora.
De Guayaquil, no Equador, Mónica Ojeda nos joga na cara montanhas, vulcões, tradições obscuras, crenças soturnas e desconfortos humanos.
Adentramos no livro curiosos e saímos derrotados, sujos de sangue – venoso/arterial e menstrual – e tentamos concatenar se o que acabamos de ler ali realmente foi escrito ou se sopraram alguma fumaça ancestral e perversa em nossas narinas para que delirássemos.
“Fever-Dream” traduz bem o que senti ao longo de cada um dos contos. Um “sonho febril” – algo escuro e sinistro que vem quando estamos frágeis e decaídos. Uma energia escura pronta para nos tomar e nos deixar de joelhos.
Não importa se você está lidando com os desafetos familiares e o sinistro de ‘As Voladoras’, com a brutalidade vermelha de “Sangue Coagulado”, com a sensibilidade deliciosamente aterradora de ‘Cabeça Voadora’, com o Almodovariano ‘Caninos’, com o punk rock splatter cheio de coração de ‘Slasher’, com a jornada ácida e impecavelmente crítica de ‘Soroche’, com o surrealismo brutalista e sexual de ‘Terremoto’ ou com o monstruosamente belo ‘O mundo de cima e o mundo de baixo’... você sentirá cada palavra se arrastando tetricamente por baixo da sua pele, próxima dos ossos.
Palavras com cheiro de ferro.


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