HQ: Sharaz-De (Sergio Toppi - Figura) - Crítica
Toppi brincando em criar cada história fabulosa que Sharaz-De (Sherazade) conta para sobreviver a um rei tirano, que, magoado, mata uma mulher por amanhecer.
A fluidez, inventividade e peculiaridade da arte de Toppi alçam grandes voos aqui, não há civilizações que sejam cópias uns dos outros, não há rostos iguais ou criaturas repetidas... O que temos é um verdadeiro universo fantástico, ao ponto de que o próprio texto perde um pouco de sua relevância.
Toppi não faz nenhuma acrobacia narrativa. É tudo contado em um tom bastante direto. Estão lá e são fiéis e não muito mais. Mas, como eu disse, elas são a gênese de imaginações visuais selvagens!
Sherazade encanta o leitor tanto quanto encanta o Rei. Queremos mais de seus olhares rodeados por um preto fechado e que transmitem toda a sua sagacidade, e de suas histórias, detentoras de algum ensinamento, algumas como "cautionary tale", outras com requintes de crueldade, tudo em prol de sua fuga criativa da tirania do patriarcado, salvando a si própria e diversas outras mulheres.
Tal como acontece com qualquer representação de uma antiga obra árabe pela pena de um europeu, haverá questões relacionadas aos espectros iminentes do Orientalismo e da apropriação. As preocupações são válidas, e Toppi apoia-se um pouco nas armadilhas orientalistas, mas não tanto como poderíamos esperar de um trabalho publicado na década de 1970.
Além disso, o mistério e a grandeza estrangeira do seu trabalho em Sharaz-De parecem espelhar a sua própria propensão para tornar cada história misteriosa e estranha. Mesmo uma análise superficial do seu trabalho mostra que Sharaz-De não é o único nas suas paisagens selvagens, trajes errantes e figuras exóticas – estes são traços comuns em toda a sua obra. Embora não seja perfeito no retrato dessas pessoas e de sua cultura - mais por causa da sua reinvenção selvagem do que por deturpação.
Vale a pena conhecer as fábulas originais, claro. É arrogância e ingenuidade acreditar que o que você ou a sua cultura produziu é seu – tudo vem da apropriação de produtos intelectuais/visuais de outras culturas.
Que Sharaz-De seja só uma porta de entrada para as 1001 noites.



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