HQ: Henri Désiré Landru (Chabouté - Pipoca & Nanquin) - Crítica

Numa edição caprichada, bem impressa, livre de erros e feita num preto e branco lindíssimo – posso estar errado e o francês Chabouté nunca os ter conhecido, mas é a um tipo de arte com as influências do Brecchia pai e filho e também de Muñoz – temos o quadrinho HENRI DÉSIRÉ LANDRU, lançado pelo Pipoca & Nanquim. Com uma narrativa ágil e repleta de flashbacks bem colocados, acompanhamos um estelionatário que é chantageado por um ex combatente da primeira guerra mundial para que seduza e traga até sua casa no campo mulheres solitárias e bem de vida, para que tenham seu dinheiro roubado e sejam enviadas para a Argentina. Num ‘plot twist’, descobrimos que o ex combatente está matando cada uma delas para usar parte de sua pele na reconstrução de seu rosto e – além disso – há um plano do governo francês de alimentar a mídia com informações do Serial Killer para que a impopular guerra onde estão envolvidos saia da capa do jornal. O quadrinho é originalmente de 2006 e nessa época já havia diversas obras, principalmente em francês, falando do Serial Killer e – a não ser que o próprio Chabouté tenha informações privilegiadas – seu quadrinho é um engodo misógino e patriarcal. De todas as possibilidades de criatividade e inventividade, ele escolheu a pior delas: transformou o serial killer num “coitado” que está sendo manipulado, atraindo vítimas por causa do bem-estar de sua família, tudo salpicado por teorias da conspiração do governo francês. Isso é um problema porque todas as evidências que se encontram na literatura é a de que Désiré era culpado sim, inclusive com novas evidências de MAIS assassinatos sendo descobertas em 2018. Há ainda falas polêmicas como “ignore o cacarejar dessas galinhas, ignore essas mulheres, pois são mulheres”, ditas pelo serial killer em seu julgamento, tentando intimidar testemunhas e corroborando sua misoginia e as fantasias de poder e dominação - fora as dezenas de provas contundentes. Sem reflexão sobre machismo, misoginia, abuso, vitimização e contexto histórico, Landru, culpado por evidências da época e por evidências agora e inocentado por um quadrinista. Quantos adolescentes e adultos tomarão a HQ como verdade? CURIOSIDADE: outra falha no quadrinho é chamar o Chabouté de BARBA AZUL sem nenhuma explicação. A nomeclatura vem de um conto francês sobre um homem rico que tinha a barba azul e que tinha o hábito de matar suas esposas. Quando há crimes "parecidos" o nome BARBA AZUL acaba sendo trazido para esse serial killer. Já tivemos, por exemplo, 10 serial killers apelidados de BARBA AZUL.

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