Crítica de filme: Poor Things / Pobres Criaturas (2023)

Contexto: Yorgos Lanthimos é a nova coqueluche do Weird. Menos explícito que o nazistinha Lars Von Trier, mais atento que o showman Gaspar Noé, ele vem tentando se colocar num nível Julia Ducournau de gênio criativo. É o hollywood-cult. O filme é baseado no livro POOR THINGS de 1992, escrito por Alasdair Gray. O autor criou uma mistura de conto de fadas, Frankenstein e Lolita, mantendo inclusive o formato epistolar usado por Mary Shelley. Repleto de sátira política, Bella é uma mulher NADA vitoriana. Uma linda homenagem ao trabalho de Shelley e repleto de referências à história da Inglaterra. Logo de cara, é impossível não se apaixonar pela cinematografia de Robbie Ryan. O filme é ricamente colorido e repleto de ângulos criativos. Imagino o quanto de BARRY LYNDON Robbie deve ter implantado aqui. A cada cena, tons deliciosos pulam na tela, daqueles que gostaríamos que estivessem presentes nas nossas vidas e assistimos tudo acontecer sempre de forma inusitada. Muito Freudiano, assim como o livro, vemos um cientista que foi usado em experimentos de seu próprio pai realizar experimentos envolvendo uma mulher morta e seu bebê, cujo cérebro é transplantado para a genitora suicida. Com um roteiro que remove boa parte da fantasia e, infelizmente, da autocrítica ao machismo do livro, Lanthimos acaba nos dando uma história mais otimista e positiva, muito menos soturna que o material fonte. Mas, infelizmente, mais neoliberal e careta. Por que é o corpo de uma mulher? Por que ela não pode morrer junto de seu feto? Hollywood-cult. Seria a melhor performance da carreira de Emma Stone? Provavelmente. Bella é sedutora, fascinante e desconcertante, e sua maneira de ver o mundo pela primeira vez não consegue evitar de atrair as pessoas para ela. Vemos ela se tornar uma mulher com todas as lutas e frustrações que isso inclui e sentimos como se tivéssemos assistido ao desenvolvimento completo de um ser humano. Poor Things é uma delícia de ver. Um projeto divertido, mas que só consegue provocar os filmes de herói que Lanthimos detesta, cheios de corpos lindos que não fodem. Aqui, tudo é carnal e erótico, embora não disfarce o conservadorismo do diretor.

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