Crítica de Filme - Existenz

Jude Law é um novato em jogos de realidade virtual que tem que proteger a designer Allegra de um grupo sombrio de fanáticos anti-jogos. Em eXistenZ, de Cronenberg, as texturas do jogo, filme e vida ficam cada vez mais difíceis de separar, à medida que Law se vê perdendo todo o senso de identidade (e autonomia), ao mesmo tempo em que brinca de Deus. Mantendo a habitual obsessão com o que em Videodrome ele chamou de “a nova carne”, os protótipos de consoles usados pelos personagens são pods de “metacarne” – extensões orgânicas e erotizadas do corpo. Com mamilos em vez de botões, esses objetos grotescos são acariciados e palpados, e conectados aos jogadores através de um umbigo, como se jogar fosse um ato procriativo. A conexão máxima. Tudo certamente – e perversamente – sexualizado. À medida que Allegra e Law exploram juntos seus novos ambientes – lugares paranóicos cheios de conspiração, traição e rebelião violenta – Cronenberg também aborda o lado corporativo. Seus mundos de jogos são povoados por desenvolvedores e seus produtos – vistos por alguns como um sacrilégio contra a realidade, e por outros como brinquedos invejáveis, ou mesmo artigos de culto. Equanto cita cifras, também vislumbramos a exploração antiética (neste caso, répteis e anfíbios mutantes) para produzir os pods, e as condições de trabalho insalubres nas fábricas onde são montados – tudo um lembrete de que jogos têm mais de um tipo de ligação oculta ao mundo real. Em última análise, eXistenz se preocupa com a mistura entre a vida real e com os mundos irreais dos filmes ou jogos. Law é o parâmetro - confuso, delirante, seus impulsos inexplicáveis e irresistíveis, seus desejos de parar e de continuar – com grandes características nossas (necessitados, assustados, excitados e compulsivos em busca de uma experiência escapista e transcendente). Em um mundo com jogos bilionários, tatuagens de clãs de WoW, tiroteios em massa, 4chaners misóginos e surpremacistas, inceis, garotos que deixam de estudar para competir em e-games e a Addidas fazendo campanhas milionárias de roupas para o metaverso, podemos dizer que nosso amado diretor segue acertando.

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