Crítica de HQ - Bezimena (Zarabatana)
Assustadora, difícil e incrivelmente transparente.
Uma HQ totalmente adulta que mais se parece um filme de David Lynch, Bezimena concentra sua atenção na história de um predador sexual. Nina Bunjevac formata a história de forma que haja uma página de diálogo e, em seguida, uma ilustração enorme na página oposta. Em alguns casos, há representações explícitas de atos sexuais, sempre em locais esquisitos e escondidos.
Se você decidir ler isso aqui, cuidado com os diversos gatilhos de abuso.
Bezimena é assustadora e perturbadora, o que não é surpresa, dado o material original. As ilustrações me lembram o foco intenso e a qualidade das ilustrações de Frankenstein de Bernie Wrightson (minha edição gringa chegou há algumas semanas. Review em breve. Não gosto de traduções da Mary Shelley).
E, novamente comparando com Frankenstein, vemos aqui uma mulher que passou por traumas intensos e está escrevendo para exorcizar sua própria escuridão. Benny, o agressor, tem o papel dessa figura responsável por gerar toda a situação terrível na qual diversas mulheres se encontram. É fácil imaginar/perceber que Bunjevac está nos mostrando que ele é um avatar de todos nós. De que todos somos parecidos com Benny em algum nível – uma coleção de traumas, obsessões e desejos profundos – todos somos agressores em potencial.
Não é surpresa o quão certa ela está quando pensamos nos números de abuso sexual, feminicídio e violência generalizada perpetrada por homens héteros e cis.
Só que, e é por isso que o quadrinho BRILHA, Bunjevac sobreviveu a abusos assim e tem a coragem monumental de fugir da lógica simplista de “trauma = dor” da nossa sociedade apaixonada por psicólogos de instagram. É tudo muito mais complexo.
Ela parece se imaginar como Bezimena, ou como as parceiras de Benny. Sem falar diretamente, ela mostra como nossos sentimentos podem ser INDESEJADOS, obscuros e contraditórios. Em ilustrações fabulosas, o sexo parece ser consensual ou não. Em outras é extremante sensual, ultrapassando a camada da permissão. Um mapa sombrio de recuperação e aceitação.
A HQ acaba sendo um tratado sobre como é difícil para todos nós – vítimas ou não – dizermos o que realmente queremos.


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