Crítica de Quadrinho - Frankenstein 200 (Clepsidra)

“Frankenstein” é um dos romances mais famosos de todos os tempos. Publicado anonimamente em 1818 e criado por uma escritora moldada por traumas e luto – mãe de três filhos que morreram e filha de uma escritora pré-feminista que morreu cedo – Mary Shelley dobrava a escrita ao seu bel-prazer, até como uma forma – alguns biógrafos suspeitam – de se ‘conectar’ com sua falecida mãe. O que poderia inclusive torturá-la, já que sua mãe também escreveu sobre como criar filhos. Em seu diário, temos entradas da autora como “Amamentar o bebê, ler”*. No dia seguinte “encontrei o bebê morto”*. Seu próprio nome era feito de pedaços de pessoas mortas: Mary Wollstonecraft da mãe, Godwin do pai e Shelley do marido. Frankenstein é quatro histórias em uma: uma alegoria, uma fábula sci fi, um romance gótico epistolar e uma autobiografia, um caos de fertilidade literária torturante para uma jovem autora que tentava concatenar seu luto, “progênie morta”* e uma existência fúnebre. Em 2018, a Editora Clepsidra – num trabalho brilhante, cuidadoso, plural e afinado com o gótico – lançou Frankenstein 200, celebrando o bicentenário da nossa amada obra. São 700 cópias de puro deleite. Temos um trabalho de design gráfico, impressão e uso de materiais impecável, digno da autora e da obra. Quando vamos para o conteúdo, tudo só melhora. Doze artistas roteirizam e ilustram seis histórias inspiradas no original e abordam nuances incríveis. Francis, Retalhos, O Raio... e You Make... são sensíveis, certeiras e nos mostram que – contrário a toda a polêmica que mencionei aqui com um Frankenstein ilustrado por IA – temos gente que de fato entendeu a crítica e o ponto de vista da autora. Já Jurupari e A Noiva de Shelley são soberbos. Dois contos curtos que conseguem pegar nuances da obra e da personalidade de uma autora revolucionária, anti-patriarcal e queer. É um deleite ver a arte do Alex Genaro e da Gio Guimarães servindo de carne ao sopro de vida que são os roteiros subversivos de Ana Fiori e Hector Lima. Seguimos aprendendo, construindo e honrando Mary Shelley, a “última relíquia de uma raça amada, de companheiros extintos”*. *retirado dos diários de M.W.G.S.

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