Crítica de Filme - El Conde
Uma figura sombria e encapuzada desliza pelos céus noturnos de Santiago, no Chile – um símbolo de presságio que paira sobre a cidade moderna. Ele entra em prédios de escritórios, fábricas, hospitais e apartamentos, e se alimenta brutalmente dos habitantes solitários de dentro deles. Este vilão, no entanto, não é fictício. Ele é o general Augusto Pinochet, o brutal ditador militar apoiado pelos EUA que governou o Chile de 1973 a 1990 e morreu em 2006 ainda com o sangue de milhares de pessoas nas mãos.
Somente em El Conde, o hipnotizante filme de melodrama e terror tragicômico de Pablo Larraín, Pinochet nunca morreu de fato; ele era um vampiro imortal e fingiu sua morte para poder evitar um julgamento e viver sua vida em paz em um rancho remoto, subsistindo com smoothies nutritivos feitos de corações humanos e aproveitando a vasta fortuna que acumulou durante seu reinado de terror.
Esse nem é o elemento mais maluco do filme.
Filmado por Edward Lachman num preto e branco DELICIOSO, estilo Andrei Rublev, pode ser o projeto mais perverso que a Netflix já assinou.
A ideia de um político como um vampiro não é nova. Em seu filme Il Divo, de 2008, Paolo Sorrentino retratou o polêmico político italiano Giulio Andreotti também como uma espécie de vampiro, uma figura silenciosa e sem idade que vive em um mundo de sombras elegantes. Michel Temer, no Brasil, foi constantemente associado a Drácula. Há uma relação fácil entre um predador maldito aristocrata que bebe o sangue do proletariado, né?
Larraín abraça o gênero. O sangue está por toda parte – acumulando-se no chão, deixando manchas grossas, escorrendo pelas bochechas e queixo. Ele não tem medo de encontrar beleza e emoção nesta história monstruosa que inventou sobre as pessoas que violaram e brutalizaram o seu país.
E é interessante ver que por baixo da montagem frenética e da fotografia incrível há toda a tristeza e ódio de Larraín, que se torna nossa também.

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