Crítica de filme: When a Stranger Calls (1979)
“O que você quer?”
“Seu sangue despejado sobre o meu corpo”.
Esse é um dos diálogos cortantes (olha a piadota) desse proto-slasher dos anos 70. Aqui, você encontra a origem de franquias icônicas do cinema como Pânico, filmes razoáveis como Eu sei o que vocês fizeram no verão passado e até mesmo parte da jogada de gato e rato do BRILHANTE (mais uma piadota) Shining Girls.
A abertura do filme mostra uma babá (Carol Kane) sentada no andar de baixo da casa do Dr. e da Sra. Mandrakis, no subúrbio de Los Angeles, cada vez mais alarmada com uma ligação incômoda que fica perguntando com seu distinto sotaque inglês: “Você já checou as crianças?”.
Comigo falando pode não parecer muita coisa, mas na tela é agonizantemente tenso, à medida que este opulento ambiente burguês vai sendo gradualmente amputado de toda a noção de segurança.
Mesmo a babá se comporte com uma responsabilidade impecável, fazendo todas as coisas que deveria na sua situação, no seu isolamento, vulnerabilidade e desamparo, tudo vai piorando.
As palavras do interlocutor, com sua insistente referência à segurança das crianças, atingem uma profunda ansiedade da classe média americana dos anos 70, expondo os perigos que podem tão facilmente rondar as sombras até mesmo naqueles lugares que parecem mais seguros, ambientes bem equipados e totalmente modernos em um ‘bairro bom’. Como que a brutalidade vai adentrar a sua pequena fortaleza?
Hoje fica fácil conectar WHEN A STRANGER CALLS com Black Christmas e até mesmo Halloween, mas é impressionante o nível de visão e coragem para explorar não só as rachaduras no ‘sonho americano’, mas também o desejo de sangue vingativo que a classe média branca desenvolve sempre rapidamente com um policial soltando um “Mate ele direitinho” ao saber que um detetive persegue o suposto vilão.
Com um antagonista razoavelmente insano, que se encaixa bem no bairro pobre, mas é ‘invisível’ no bairro rico, ao ponto de entrar nas casas sem ser percebido – afinal, quem imaginaria um pobre fazendo isso ali? – o filme nos faz questionar o bem e o mal. “Eu tive que voltar”, ele afirma.
Afinal, quem não quer melhorar de vida custe o que custar?

Comentários
Postar um comentário