Crítica de Quadrinho - Mort Cinder (Editora Figura)
O passado está tão morto como pensamos?
Mort Cinder – o personagem, não o livro – oferece mais perguntas do que respostas, mas é assim que deveria ser.
A HQ, escrita pelo jornalista argentino Hector Oesterheld e desenhado por Alberto Breccia é provavelmente tão misteriosa quanto o homem que lhe dá nome. Esta edição da FIGURA reúne as histórias de Mort Cinder num formato/tradução/qualidade incríveis. Elas apareceram originalmente de 1962 a 1964 e são lendárias por sua importância para a das HQs, então o negócio serve de documento histórico e entretenimento.
Talvez essa seja a maior surpresa de todas – a parte do entretenimento. Tudo envelheceu incrivelmente bem, e há aspectos do personagem que ainda estão presentes nos quadrinhos modernos.
A princípio não somos apresentados ao personagem Mort Cinder, mas sim ao seu companheiro, o antiquário Ezra Winston em uma leve história de terror em que misteriosos hieróglifos trazem estranhas visões. Cinder chega na história seguinte. Ezra é visitado por grupos de estranhos homens esqueléticos que espreitam assustadoramente e levam à ressurreição de Cinder e ao segredo dos chamados Homens de Olhos de Chumbo.
É inquestionável a relação entre Oesterheld e o tempo. Seja a argentina destruída por um mal monstruoso que força Juan Salvo a viajar entre tempo e espaço, seja o noir de Sherlock Time. Aqui, provavelmente inspirado em Jorge Luis Borges, somos confrontados por tempo e memória.
Sempre fazendo jus ao distanciamento que criou do quadrinho Mainstream, Oesterheld nos dá uma visão gótica e insólita da imortalidade. Ao contrário dos heróis clássicos “abençoados” por ela ou que a almejam, tal “poder” é uma maldição. Como diria Borges – “Ser imortal é insignificante; exceto o homem, todas as criaturas o são, pois ignoram a morte”.
Assim, a cada ressureição, Mort Cinder carrega a história do mundo, a memória de suas mortes anteriores. Ele, retornado, segue levando o que restou... os resíduos, a sujeira do mundo velho. Ele nos impede de esquecer e de, portanto, viver o mesmo mal novamente.
Então não. O passado tem que estar vivo, para que sempre lembremos o melhor caminho a ser trilhado.


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