Hq - Lovistori (Brasa)
Judith Butler, filósofa estadunidense, tem uma teoria crítica de gênero que aborda quais vidas ou corpos são vivíveis e quais são matáveis. Ela chega à conclusão de que regimes de produção de sujeitos (como o capitalismo) são também regimes de violência. O problema é que esses regimes acabam por eleger que a violência será exercida contra os corpos matáveis – pessoas LGBTQIAPN+, racializadas, mulheres – através dos indivíduos que esse próprio regime gera.
Vemos isso através de acampamentos neopentecostais de cura gay, de 35,2% das denúncias de lgbtfobia serem de violência psicológica e 20,9% de violência física (site politize!) e do fato de pessoas homoafetivas serem consideradas doente mentais oficialmente até 1990 e pessoas trans até 2019.
Você já pensou, por exemplo, que homem é um gênero mas quando se pensa violência de gênero não se pensa em homens cis?
O regime ao qual Butler se refere é esse que instaurou uma desigualdade baseada numa diferença. Um olhar que separou grupos a partir da genitália e, daí, separou ocupações, profissões, locais que podem ser ocupados. Mas, quem sofre assédio? Importunação sexual? Estupro? E por quem?
Lovistori não é um quadrinho. A obra, escrita por Lobo, é uma fotografia, um microcosmo do cotidiano de corpos matáveis que é ampliado para nós. Nós quem? Não há pesquisa ou dados concretos na internet, mas o mercado de quadrinhos sobrevive graças a uma classe média cis e branca, e é muitas vezes produzido e tem suas obras selecionadas pelos mesmos. Lovistori é um grito daqueles que abalam nosso espírito e arrepiam os cabelos de nossos braços e pernas. É um roteiro certeiro, lindo, brutal e violento, que subverte um meio hoje elitista para carregar uma mensagem conscientizadora. Subverte que corpo pode amar. Que casal pode existir.
Eu nunca imaginei que num quadrinho desenhado pelo GIGANTE Alcimar Frazão eu estaria focado em tudo, menos na arte deslumbrante, no preto e branco voraz, feito para nos destruir.
Há ainda a INCRÍVEL Monique Prada, autora do PUTAFEMINISTA (Veneta) contribuindo com questionamentos sempre pertinentes e a artista Priscila Fróes que escreveu um texto com a dose certa de ódio.
Imperdível e necessário.
Autores: S. Lobo e Alcimar Frazão (arte)
80 páginas
Capa Dura
Editora Brasa
Sobre os autores de Lovistori, Lobo e Alcimar Frazão
LOBO
S. Lobo é editor da Brasa Editora. Editou de forma independente o álbum Castanha do Pará, de Gidalti Jr., ganhador na estreia da categoria quadrinhos do prêmio Jabuti 2017. Participou, como convidado, do Salão do Livro de Paris 2015, ano em que o Brasil foi o país homenageado. Roteirista de histórias em quadrinhos, publicou o álbum Copacabana em 2009, com desenho de Odyr Bernardi, pela Editora Desiderata e, em segunda edição, pelas editoras Aeroplano, em 2015, Varuum (França) e Polvo (Portugal), em 2014. Foi também editor das editoras Desiderata e Barba Negra.
ALCIMAR FRAZÃO
Alcimar Frazão é quadrinista, ilustrador e gestor cultural. Em 2013, foi curador, com Paulo Ramos, da exposição HQBR21 – O Quadrinho Brasileiro do Novo Século, o primeiro panorama crítico da nova geração de autores brasileiros. Lançou, no mesmo ano, o álbum Me & Devil (independente – BIMBO Groovy), publicação pela qual recebeu a indicação ao troféu HQMIX de Novo talento - desenho e que foi publicada em Portugal (Polvo, 2015) e Espanha (Novo Vinilo, 2016), além de ter recebido uma republicação de luxo no Brasil (Editora MINO, 2016). É um dos autores de Ronda Noturna, coletânea de terror premiada pelo ProAC HQ, do Governo do Estado de São Paulo, lançada em 2014 pela editora Zarabatana. É autor do romance gráfico Cadafalso (Editora MINO, 2018 - Polvo, 2019), também premiado no ProAC de 2016. O álbum foi considerado pela crítica especializada como um dos lançamentos mais expressivos do cenário brasileiro daquele ano. Além de seu trabalho autoral como quadrinista, atua como curador de programação cultural junto ao Sesc SP desde 2010.
Sobre a Brasa Editora
A Brasa Editora é um selo de quadrinhos brasileiros, que publica histórias sobre o Brasil para leitores brasileiros e todos os que gostem de nossa cultura. Do Oiapoque ao Chuí. Da periferia ao centro. Do mar ao sertão. E vice-versa. Os primeiros títulos da editora, lançados juntos em novembro de 2021, foram Brega Story, de Gidalti Jr. e Lovistori, de S. Lobo e Alcimar Frazão. Ambos premiados, foram aclamados com entusiasmo por público e crítica. Lobo, com passagem nas editoras Desiderata e Barba Negra, assume a cadeira de editor da Brasa.
A Brasa ficou entre os 5 finalistas do Prêmio Jabuti 2022 na categoria Quadrinhos. Com seus títulos, já foi vencedora de prêmios do mundo dos quadrinhos e literatura: CCXP Awards 2022 (Melhor Álbum de Quadrinhos com Brega Story), HQ Mix 2022 (Edição Especial Nacional com Brega Story e Melhor Arte-Finalista com Lovistori - Alcimar Frazão), Prêmio Grampo 2023 (com Barrela) e Prêmio Minuano de Literatura 2022 (Melhor Quadrinho com Lovistori).


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