Crítica de Filme - The Hunger (Fome de Viver)
Bela Lugosi está morto. Morto-vivo.
A voz aterradora de Pter Murphy ecoa enquanto duas figuras de preto e com óculos de sol se movem nas sombras, seduzindo um casal numa boate. A sedução vai até a casa do par que, subitamente, tem sua garganta cortada por David Bowie e Catherine Deneuve. A abertura de THE HUNGER deixa claro com sua psicodelia punk e verve que você assistirá uma bela obra de terror.
É triste imaginar que quando Tony Scott morreu, pouquíssimos veículos de mídia falaram sobre isso aqui. Só mencionaram Top Gun, Um tira da pesada 2 e O último Boy Scout.
Provavelmente pelo fracasso de bilheteria e por ter sido espancado pela crítica da época que não conseguiu perceber como a excentricidade, a transgressão e a arte ali estavam no talo.
A palavra VAMPIRO, por exemplo, não é mencionada uma vez se quer.
Com 40 anos de idade completos em 2023, o filme tem uma edição e montagem ágil e deliciosa, provavelmente proporcionada pela experiência do diretor e de seu irmão (Ridley Scott, de Alien) com propaganda.
É um filme suntuosamente feito, com uma cinegráfica pitoresca, cortesia de Stephen Goldblatt (quase todos os quadros poderiam ser montados e exibidos em uma galeria). Ao mesmo tempo, nosso casal imortal têm um porão de concreto cinza e insípido com um incinerador onde despejam os corpos das vítimas. Essa justaposição chocante do belo contra o horror é um tema recorrente em The Hunger. À medida que os espectadores são seduzidos pelo requintado e pelo sereno, eles são subitamente levados ao terror e à escuridão.
Tudo embalado numa trilha sonora que alterna deliciosamente entre o rock alternativo (Bauhaus, Bowie, Iggy Pop) e o clássico sombrio (Le Gibet de Ravel, Lakmé de Léo Delibes) aos sintetizadores gelados e sinistros do compositor Howard Blake. Foi lindo ver ONLY LOVERS LEFT ALIVE emular isso.
Hollywood pode não ter entendido The Hunger na época (foi chamado de esotérico, presunçoso), mas a brincadeira com o gótico, imortalidade, manipulação faustiana e o monstruoso feminino o transformaram em um ícone cult delicioso e perigoso. Viciante.
Assim como seus protagonistas, The Hunger é um filme incapaz de morrer.
Direção - Tony Scott
Roteiro - Ivan Davis e Michael Thomas
Baseado no livro The Hunger, de 1982 de Whitley Strieber
Lançado em 1983
Bilheteria - 10.2 milhões de dólares

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