Crítica de Quadrinho - A Guerra do Deserto

 

Fonte: acervo do autor.
Um Cautionary Tale sobre os perigos da humanidade para si mesma: a Guerra do Deserto de Enrique Breccia.

Acho que os Breccia — pai e filho — compartilham muito mais do que o fato de que são artistas primorosos. Eles são unidos também por uma grande quantidade de trauma e luto.

Ambos sentiram o gosto amargo que um governo fascista pode deixar. O tipo de governo que — assim como um cachorro grande e malvado — adora ossos e fará de tudo contra aqueles que não são seus donos. Alberto e Enrique viram a ditadura argentina levar seu amigo e companheiro de criação de quadrinhos Héctor Oesterheld (e suas filhas) após a publicação de CHE. Estamos falando aqui do mesmo país devastado por “colonizadores” e exterminadores de indígenas nos pampas.

A dor e o trauma ficam muito evidentes aqui. Enrique escolheu eventos de outro século e em outras terras para nos mostrar os horrores dos quais somos capazes, especialmente se houver distinção política ou estética entre grupos.

Nas cinco histórias que compõem o volume, vemos a arte impressionante de Enrique — que parece ter usado um bloco de material que revela um preto sinistro a medida em que ele remove a camada branca externa e lapida formas — nos dar um OUROBOROS das nossas vidas enquanto sociedades humanas “organizadas”. Há quadros onde vemos formações geográficas interessantíssimas, paisagens, queimadas, o sol… tudo através do preto e do branco desafiante, tudo tão bem retratado quanto o sofrimento humano que só é alternado por finas sarjetas.

Ele nos educa, como se estivesse num Cautionary Tale, que esse ciclo eterno de violência — na Argentina, em Angola ou no México — e que acomete todos os lados de um embate só trará frutos amargos. É uma violência patriota, hereditária, de todas as cores e tamanho. A eterna lei do retorno, do reinício, garantindo dor e sofrimento para cada um de nós, cortesia de nós mesmos.

Uma ótima edição da Editora Veneta.

Com dois ótimos textos introdutórios. Ela é curta, incisiva e essencial. Ainda mais nos tempos de hoje, onde pessoas de mente fraca, coração corrupto e que se alimentam apenas da lata de lixo da ideologia, pedem ajuda aos militares e a um presidente que mais parece um câncer.

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