Crítica de Quadrinho - Angola Janga de Marcelo D'Salete
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| O autor: Marcelo D'Salete. Fonte: Papo Nerd. |
Eu amo esse título, ANGOLA JANGA. Da língua Quimbundo, significa “Pequena Angola”. A região onde se localizava Palmares.
Tal como Kardec, em seu Livro dos Espíritos, para essa review temos dois axiomas:
1º: não há um quadrinho nacional maior ou melhor do que Angola Janga. Veja… se pensarmos em uma vasta produção nacional feita por, para e sobre brancos, envoltos em pseudo-ativismo e quasi-autocrítica… NADA dos nossos quadrinistas tupiniquins supera o trabalho de Marcelo D’Salete.
2º: O autor não tentou aqui fazer uma ferramenta didática. Ou seja, Angola Janga não é criado como um pretenso instrumento pedagógico pedante a lá Laurentino Gomes. D’Salete não está aqui pensando em ensinar sobre escravidão e sobre Zumbi — mesmo nas alfinetadas brilhantes como em “Há cativos em Palmares”, e a resposta “Não como nos engenhos e vilas” — ele está aqui para nos ensinar que a escravidão é anacrônica.
Ou seja, os engenhos, senhores e escravos estão aqui. Hoje. Vemos a menina Dara — não darei spoiler — conectar essas realidades. Vemos que Martin Luther King estava 100% certo no seu “100 anos depois [da abolição] o negro ainda não é livre. 100 anos depois a vida do negro ainda é aleijada pelas algemas da segregação e correntes da discriminação”. Nossa (brancos) dívida histórica é absurda — e incaducável.
Seu segundo ensinamento é o de que o racismo e a segregação são estruturais e hereditários. O fruto não cai muito longe da árvore.
Seu terceiro ensinamento é a ilusão de que capitalismo e racismo são coisas separáveis. A ausência de consciência de classe é um combustível poderosíssimo para a manutenção de um sistema de opressão, onde A sente que oprimir B o fará sentir-se melhor e mais próximo da classe dominante C — “A gente nunca vai ser como senhor de engenho, você só não sabe ainda” — sendo que a classe dominante C precisa disso para ser o que é… uma ilusão de raças, castas, funções, hierarquias…
Talvez por isso o autor — estou chutando aqui— tenha feito todos (brancos, indígenas e negros) no quadrinho da mesma cor. Um lembrete sutil e preciso.
Ao final, como cães, matamos uns aos outros pelo osso carcomido atirado por uma mão cheia de anéis.
Um quadrinho que demorou 12 anos para ficar pronto e que, em alguns minutos de leitura, nos mostra quem realmente somos.

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