Livro: Distância de Resgate (Samanta Schweblin, Editora Fósforo)
Uma coisa comum quando discutimos TERROR – ou qualquer outro gênero – é o perigo de não termos Léxico para tanto.
Explico: muitas vezes o gênero foi atacado como grotesco, nojento, menor e inútil. Isso muitas vezes ocorreu pelos críticos da época não terem nenhuma referência para lidar com o tema. Como alguém acostumado com Jane Austen e Maria Edgeworth reagiria ao ler Frankenstein?
Um pouco disso me assombrou enquanto eu lia o brilhante DISTÂNCIA DE RESGATE da argentina Samanta Schweblin. Como lidar com uma narrativa que se comunica com o leitor como se fosse um sonho febril (inclusive o título anglófono é esse – Fever Dream) onde autora aumenta a tensão irrefreavelmente a cada linha?
“‘Perder a casa seria pior coisa de todas’, e depois acontecem coisas muito piores, pelas quais eu daria a casa e a vida”.
Narrado como um diálogo Amanda e o soturníssimo David, somos apresentados a um formato de narrativa inteligentíssimo, quase psicanalítico, com toda a história sendo relatada pela primeira mediante intervenções pontuais desse último. A autora também sabe que menos é mais, nos fazendo mergulhar (e afogar) em um mistério horrendo que corre paralelo aos conflitos alarmantes que permeiam cada ação de cada personagem.
Esse mistério envolve uma terra rural, ora árida e seca, ora verdejante e repleta de animais. Só que essas criaturas estão morrendo aos poucos, muito provavelmente envenenados por algo que fazemos contra essa localidade por estarmos explorando-a, roubando e sugando seus recursos como células mutantes insaciáveis (para quem não sabe, a Argentina é um dos maiores produtores de soja que, infelizmente, tem recebido toneladas de agrotóxicos).
A Zona Rural de Schweblin está tão poluída e doente quanto os grandes centros, e as pessoas e animais nela morrem tão miseravelmente quanto aqueles no âmbito urbano.
David tenta orientar a caminhada de Amanda através de suas memórias. Amanda conversa sobre os pais de David e sobre sua filha, Nina. Eles buscam algo na narrativa, tão avidamente quanto nós, leitores, buscamos soluções e algum espaço para respiro.
Por sorte, a autora não nos dá nem um nem outro.










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