Crítica de Filme: Strange Way of Life - O amor, a história e o tesão.


 

Há mais de cinco décadas, Almodóvar estreou com o curta Dos putas, a história de amor que termina en boda (1974). Desde então, o mais internacional e prolífico cineasta espanhol vivo, continuou a reinventar-se, se tornando um ícone com a marca registrada do amor não correspondido e da estranheza.

E é esse amor e essa estranheza que ressurge após o tórrido encontro entre Jake e Silva, os protagonistas de Strange Way of Life, um 'capricho' de 30 minutos.

Em Strange, o diretor vai ao oeste selvagem do deserto de Almería, onde Sergio Leone filmou sua trilogia Dollars com Clint Eastwood, e embarca na resposta à questão colocada em Brokeback Mountain (2005), filme que o Almodóvar – hoje arrependido por isso – rejeitou: “O que fazem dois homens no velho oeste trabalhando juntos numa fazenda?”.

Jake e Silva, homem da lei e fazendeiro, se encontram depois de 25 anos, quando Silva chega à pequena cidade de Bitter Creek (olha o nome). Mas o amor deles é proibido e o desempenho generosamente comedido de Ethan Hawke e Pedro Pascal é uma aula de paixão contida.
Escrita em silêncios e olhares sutis, sua saudade é elegantemente pontuada pela trilha de Alberto Iglesias.

Mesmo seguindo as regras do faroeste, o poster - que lembra as icônicas pinturas de Elvis Presley de Andy Warhol – mostra que estamos diante de Almodóvar. Dentro de uma paleta de cores deliberadamente suave e a qualidade propositalmente de papelão do cenário, o verde e o vermelho característicos do cineasta estão lá.

Em uma cena particularmente luxuosa, o vinho tinto brilhante jorra em um espetáculo de bacanal, e depois há a impressionante jaqueta verde usada por Silva. O título, uma referência literal ao fado de 1965 que abre o filme, interpretado por Amália Rodrigues, como explicou Almodóvar, denuncia o quão estranha é a vida quando você ignora seus próprios desejos, e é aqui dublada pelo ator/cantor Manu Ríos num close-up extremo.

Strange Way of Life é uma ode gloriosamente suntuosa não apenas aos faroeste spaghetti ou ao próprio cinema, mas também àquelas velhas chamas que nunca morrem.

É um curta lindo e independente, com pulso de longa-metragem.

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