As Coisas que Perdemos no Fogo - Things We Lost in the Fire - (Mariana Enriquez, Hogarth)
Acredito que às vezes a essência se perde na tradução, principalmente quando vamos de um idioma tão plural e maleável como o espanhol para o inglês.
Coisas que Perdemos no Fogo foi originalmente escrito em espanhol por Enriquez. E Megan McDowell os trouxe para o inglês. Na minha opinião, essas traduções foram excepcionais - muitas vezes fiquei horrorizado, enojado e quase sempre desconfortável. Fazer o leitor sentir tão fortemente, seja qual for a emoção, não é uma tarefa fácil. Mas McDowell foi uma tradutora incrível, assim como Elisa Menezes na versão BR de Nossa Parte de Noite.
Infelizmente, não consigo ler espanhol, mas vou me virando como dá.
Os contos reunidos aqui são contados de maneira semelhante à Shirley Jackson, incorporando o sobrenatural e o mítico de uma forma cheia de terror. As histórias em si tendem a começar relativamente leves, mas à medida que nos aprofundamos, começamos a descobrir os horrores que aguardam nossos personagens.
O contexto político e econômico da Argentina paira sobre cada uma destas histórias. Muitas pessoas desapareceram ou foram flagrantemente assassinadas e neste livro temos uma cápsula do tempo. Uma lição de memória.
Não há como não torcer, não se aterrorizar ou se surpreender com o imagético tenebrosamente humano criado por Enriquez. Desde Nossa Parte de noite eu já havia sentido sua mão perfeita para a criação de personagens fabulosos, mas eu a vi desenvolver esses seres ao longo de 600 páginas. Aqui, ela se provou mais do que capaz de, em poucos parágrafos, entendermos perfeitamente as mulheres da história que dá nome ao livro. Em uma página e meia entendemos a agonia confusa e paradoxal em O Menino Sujo, brincando com a nossa culpa por termos uma vida melhor do que aqueles que estão à margem.
Os Anos Intoxicados me enfiaram drogas, sexo, adrenalina e vingança, evocando centros de tortura no meio de Buenos Aires... Queria poder falar de cada conto aqui.
É uma coleção maravilhosamente bem escrita e que tem muito a nos ensinar, dada a nossa própria ditadura. O realismo mágico e o terror de Enriquez incomodam muito mais que o normal, provavelmente por serem demasiadamente humanos e nada estrangeiros.
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Autora - Mariana Enriquez
Editora - Hogarth
Capa cartão
226 páginas


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